19/07/2015 -- 00h00 - Folha de Londrina
Diretor de multinacional detalha quarta revolução industrial, que engatinha no Brasil mas já chegou aos Estados Unidos e Alemanha
Breno Matias Michel, diretor da Regional Sul da Siemens Brasil
Depois da máquina a vapor, da energia elétrica e dos computadores, o mundo começa a viver a quarta revolução industrial. É a indústria 4.0, que está se desenvolvendo principalmente em países como Alemanha e Estados Unidos. No novo modelo, máquinas e peças se "comunicam" através de redes, resultando numa produtividade muito maior. Digitalização, internet das coisas, espaços ciberfísicos são palavras que estão no dicionário da nova era.
No Brasil, a indústria 4.0 ainda é coisa do futuro. Só agora os empresários começam a discutir o assunto. "Na verdade, a gente está bem atrás", afirma Breno Matias Michel, diretor da Regional Sul da Siemens Brasil. Ele esteve em Londrina no último dia 7, quando participou do Siemens PLM Day - encontro com empresários no qual a empresa apresenta sua plataforma para inovação inteligente.
Soluções da Siemens, segundo Michel, já permitem que um produto seja projetado, testado, corrigido e validado no mundo virtual, antes de existir fisicamente. O empreendedor já pode fazer todo o planejamento da sua produção antes mesmo de alugar, comprar ou construir sua fábrica.
O que caracteriza a indústria 4.0?
São três grandes características. Primeiro, é a presença de redes de comunicação industrial. A segunda é uma base de dados de informações referentes a produtos e processos. E a terceira é a implementação de sistemas ciberfísicos, ou seja, a capacidade de máquinas, equipamentos e peças conversarem (entre si), se entenderem dentro do ambiente fabril.
Indústria 4.0 e indústria digital são a mesma coisa?
A base da indústria 4.0 é a digitalização. É a capacidade de juntar o mundo real e o virtual. É você ter um ambiente virtual na fábrica que seja reflexo do que é a fábrica real. Isso graças aos sistemas de tecnologia de hardware e software. Então, esse ambiente de digitalização faz parte da indústria 4.0.
Qual a relação da indústria 4.0 com a internet das coisas?
Quando se fala em ambiente ciberfísico, estamos falando de internet das coisas. À medida que você dá inteligência, dá base de informações para determinada peça que está sendo produzida na fábrica, seja colocando um RFID (Radio Frequency Identification – Identificação por Rádio Frequência) ou um código de barras, você tem condições de ter uma série de informações agregadas. Imagina essas peças entrando numa linha de produção, numa célula flexível. Uma hora entra a peça A, que tem a característica A, outra hora entra a peça B, que tem a característica B. As máquinas que vão trabalhar nelas automaticamente vão saber se a peça é A ou B e o que tem de ser feito. Isso é internet das coisas.
Qual o ano que ficará marcado como o do início da indústria 4.0?
Na verdade, tudo isso que a gente fala já existe, é factível, já está acontecendo. Não vai ter um momento que vamos dizer: "Agora é a indústria 4.0, todo mundo agora é indústria 4.0".
Quando se fala nesse modelo industrial, as referências são Alemanha e Estados Unidos. Ele está restrito a esses dois países?
Não dá para dizer isso. Na verdade as manufaturas estão migrando. Estão parando de produzir na Ásia. Estão voltando para a sua casa, para a Alemanha, os Estados Unidos. Já não é mais tão interessante produzir na Ásia.
Por quê? A mão de obra não é mais tão barata na Ásia?
Porque esses países evoluíram. A China evolui. Não é mais aquele país que faz produtos de baixa qualidade. O mercado evoluiu. A China começou a consumir também. Então, as fábricas estão voltando para seus países de origem com alto grau de automação. Porque isso que vai mantê-las competitivas, produzindo com mais eficiência, menos erros, menos pessoas, de uma forma mais flexível.
E é a indústria 4.0 que vai dar competitividade aos países que têm mão de obra cara?
Exatamente. Para que produzir com um monte de gente, um monte de máquina, se você pode produzir mais com menos recursos, de forma mais enxuta, mais eficiente? Mas mesmo na indústria 4.0, você continua tendo intervenção humana. Só que é uma mão de obra mais eficiente, com mais valor agregado. (A indústria) Também será ergonomicamente mais viável.
Essa mão de obra que existe hoje no chão da fábrica será substituída por engenheiros, especialistas em tecnologia da informação?
Tem uma coisa que a gente precisa se preocupar no País, que é educação. Nós precisamos evoluir muito neste sentido. A gente sabe que as atividades que podem ser automatizadas serão automatizadas. É questão de vida ou morte. Essas pessoas precisarão evoluir, ter formação tecnológica.
E a China, considerada a inimiga número 1 da indústria nacional, caminha mais rápido que o Brasil para esse modelo industrial?
Nitidamente a China é mais evoluída neste aspecto. Compra mais tecnologia. Em 2013, enquanto aqui no Brasil foram vendidos 1.300 robôs para automação, a China comprou 35 mil. A China está trabalhando muito mais forte que a gente na automação.
O Brasil não tem indústria 4.0?
Não, ainda não. Na verdade, a gente está bem atrás. Quando você começa a visitar empresas lá fora, você vê que a gente está muito atrás.
Na crise, os industriais brasileiros se sentem mais estimulados a investir em tecnologia ou o contrário?
Há duas formas de pensar. Tem aquele cara que acha que está tudo ruim, que o mercado está em baixa, e que então não é o momento de investir. Agora tem aquele cara que pensa que é esta a hora de botar a casa em ordem. É no momento de baixa que aparecem todos os problemas. Tudo acaba se tornando crítico. Existe o empreendedor que diz: "Essa é a hora de investir". No ponto de vista da Siemens, é importante pensar em rever os processos, olhar a questão da automação, da indústria 4.0. Essa crise não vai ser para sempre. Quem trabalhar agora estará com sua empresa mais eficiente e terá grande vantagem competitiva.
E o governo tem facilitado a importação de robôs?
Eu acho que o governo tem de fazer a parte dele. A questão de importação sempre foi um problema para a gente, que sempre viveu num ambiente de alta taxação, de alta burocracia. Enfim, num ambiente de desestímulo. Só que tem uma coisa: não podemos ficar esperando pelo governo. Porque a questão de a gente ser mais eficiente, mais produtivo, não depende do governo. Depende das empresas. Então o governo tem de trabalhar mais, mas nós não podemos deixar de fazer a nossa parte, de evoluir como indústria. Não adianta ficar esperando uma movimentação que é demorada e não está no nosso controle.
O industrial brasileiro está atento para a indústria 4.0?
Está ouvindo mais, procurando entender mais o que é isso. Está ocorrendo uma troca de gerações nas empresas. Novas pessoas estão entrando em nível de direção industrial, de direção de pesquisa e desenvolvimento. Tem uma geração nova que entende melhor quando você fala de sistema ciberfísico, de rede de comunicação. Não olha isso como coisa futurística, utópica. Está havendo uma evolução.
Você pode dar um exemplo de processo produtivo desta nova indústria?
Falando dos nossos produtos, hoje eu consigo desenvolver um telefone celular, por exemplo, todo no ambiente virtual. Consigo fazer simulações nele, tanto no nível de eletrônica, como de resistência. Consigo fazer todo um planejamento de processo virtual, ferramental. Consigo criar virtualmente toda a célula de montagem dele. Eu consigo criar todo esse ambiente, testar, validar, corrigir, antes de sair construindo a fábrica propriamente dita. Antes de comprar prédio, de comprar equipamentos para fazer esse produto. Quando eu entro para produzir no mundo real, eu já tenho tudo isso planejado. Não vou errar com layout de fábrica que não funciona. Não vou errar com equipamento que comprei, mas não era aquilo. Não vou errar com processos que não funcionaram porque eu não testei que aquilo ia conflitar com outro processo.
Isso já é uma realidade?
Sim, as empresas automotivas já trabalham com isso. Você vai fazer uma linha para soldar carroceria só com robôs. Uma linha em que o carro vai passando e recebendo soldas nos lugares específicos pelos robôs. Como você faz isso? Você não faz isso com tentativa e erro na fábrica. Você faz isso num ambiente virtual. Você testa, simula, corrige, gera toda a programação dos robôs, valida. Quando monta já está tudo certo. Os nossos produtos permitem isso.
No Brasil, a indústria 4.0 ainda é coisa do futuro. Só agora os empresários começam a discutir o assunto. "Na verdade, a gente está bem atrás", afirma Breno Matias Michel, diretor da Regional Sul da Siemens Brasil. Ele esteve em Londrina no último dia 7, quando participou do Siemens PLM Day - encontro com empresários no qual a empresa apresenta sua plataforma para inovação inteligente.
Soluções da Siemens, segundo Michel, já permitem que um produto seja projetado, testado, corrigido e validado no mundo virtual, antes de existir fisicamente. O empreendedor já pode fazer todo o planejamento da sua produção antes mesmo de alugar, comprar ou construir sua fábrica.
O que caracteriza a indústria 4.0?
São três grandes características. Primeiro, é a presença de redes de comunicação industrial. A segunda é uma base de dados de informações referentes a produtos e processos. E a terceira é a implementação de sistemas ciberfísicos, ou seja, a capacidade de máquinas, equipamentos e peças conversarem (entre si), se entenderem dentro do ambiente fabril.
Indústria 4.0 e indústria digital são a mesma coisa?
A base da indústria 4.0 é a digitalização. É a capacidade de juntar o mundo real e o virtual. É você ter um ambiente virtual na fábrica que seja reflexo do que é a fábrica real. Isso graças aos sistemas de tecnologia de hardware e software. Então, esse ambiente de digitalização faz parte da indústria 4.0.
Qual a relação da indústria 4.0 com a internet das coisas?
Quando se fala em ambiente ciberfísico, estamos falando de internet das coisas. À medida que você dá inteligência, dá base de informações para determinada peça que está sendo produzida na fábrica, seja colocando um RFID (Radio Frequency Identification – Identificação por Rádio Frequência) ou um código de barras, você tem condições de ter uma série de informações agregadas. Imagina essas peças entrando numa linha de produção, numa célula flexível. Uma hora entra a peça A, que tem a característica A, outra hora entra a peça B, que tem a característica B. As máquinas que vão trabalhar nelas automaticamente vão saber se a peça é A ou B e o que tem de ser feito. Isso é internet das coisas.
Qual o ano que ficará marcado como o do início da indústria 4.0?
Na verdade, tudo isso que a gente fala já existe, é factível, já está acontecendo. Não vai ter um momento que vamos dizer: "Agora é a indústria 4.0, todo mundo agora é indústria 4.0".
Quando se fala nesse modelo industrial, as referências são Alemanha e Estados Unidos. Ele está restrito a esses dois países?
Não dá para dizer isso. Na verdade as manufaturas estão migrando. Estão parando de produzir na Ásia. Estão voltando para a sua casa, para a Alemanha, os Estados Unidos. Já não é mais tão interessante produzir na Ásia.
Por quê? A mão de obra não é mais tão barata na Ásia?
Porque esses países evoluíram. A China evolui. Não é mais aquele país que faz produtos de baixa qualidade. O mercado evoluiu. A China começou a consumir também. Então, as fábricas estão voltando para seus países de origem com alto grau de automação. Porque isso que vai mantê-las competitivas, produzindo com mais eficiência, menos erros, menos pessoas, de uma forma mais flexível.
E é a indústria 4.0 que vai dar competitividade aos países que têm mão de obra cara?
Exatamente. Para que produzir com um monte de gente, um monte de máquina, se você pode produzir mais com menos recursos, de forma mais enxuta, mais eficiente? Mas mesmo na indústria 4.0, você continua tendo intervenção humana. Só que é uma mão de obra mais eficiente, com mais valor agregado. (A indústria) Também será ergonomicamente mais viável.
Essa mão de obra que existe hoje no chão da fábrica será substituída por engenheiros, especialistas em tecnologia da informação?
Tem uma coisa que a gente precisa se preocupar no País, que é educação. Nós precisamos evoluir muito neste sentido. A gente sabe que as atividades que podem ser automatizadas serão automatizadas. É questão de vida ou morte. Essas pessoas precisarão evoluir, ter formação tecnológica.
E a China, considerada a inimiga número 1 da indústria nacional, caminha mais rápido que o Brasil para esse modelo industrial?
Nitidamente a China é mais evoluída neste aspecto. Compra mais tecnologia. Em 2013, enquanto aqui no Brasil foram vendidos 1.300 robôs para automação, a China comprou 35 mil. A China está trabalhando muito mais forte que a gente na automação.
O Brasil não tem indústria 4.0?
Não, ainda não. Na verdade, a gente está bem atrás. Quando você começa a visitar empresas lá fora, você vê que a gente está muito atrás.
Na crise, os industriais brasileiros se sentem mais estimulados a investir em tecnologia ou o contrário?
Há duas formas de pensar. Tem aquele cara que acha que está tudo ruim, que o mercado está em baixa, e que então não é o momento de investir. Agora tem aquele cara que pensa que é esta a hora de botar a casa em ordem. É no momento de baixa que aparecem todos os problemas. Tudo acaba se tornando crítico. Existe o empreendedor que diz: "Essa é a hora de investir". No ponto de vista da Siemens, é importante pensar em rever os processos, olhar a questão da automação, da indústria 4.0. Essa crise não vai ser para sempre. Quem trabalhar agora estará com sua empresa mais eficiente e terá grande vantagem competitiva.
E o governo tem facilitado a importação de robôs?
Eu acho que o governo tem de fazer a parte dele. A questão de importação sempre foi um problema para a gente, que sempre viveu num ambiente de alta taxação, de alta burocracia. Enfim, num ambiente de desestímulo. Só que tem uma coisa: não podemos ficar esperando pelo governo. Porque a questão de a gente ser mais eficiente, mais produtivo, não depende do governo. Depende das empresas. Então o governo tem de trabalhar mais, mas nós não podemos deixar de fazer a nossa parte, de evoluir como indústria. Não adianta ficar esperando uma movimentação que é demorada e não está no nosso controle.
O industrial brasileiro está atento para a indústria 4.0?
Está ouvindo mais, procurando entender mais o que é isso. Está ocorrendo uma troca de gerações nas empresas. Novas pessoas estão entrando em nível de direção industrial, de direção de pesquisa e desenvolvimento. Tem uma geração nova que entende melhor quando você fala de sistema ciberfísico, de rede de comunicação. Não olha isso como coisa futurística, utópica. Está havendo uma evolução.
Você pode dar um exemplo de processo produtivo desta nova indústria?
Falando dos nossos produtos, hoje eu consigo desenvolver um telefone celular, por exemplo, todo no ambiente virtual. Consigo fazer simulações nele, tanto no nível de eletrônica, como de resistência. Consigo fazer todo um planejamento de processo virtual, ferramental. Consigo criar virtualmente toda a célula de montagem dele. Eu consigo criar todo esse ambiente, testar, validar, corrigir, antes de sair construindo a fábrica propriamente dita. Antes de comprar prédio, de comprar equipamentos para fazer esse produto. Quando eu entro para produzir no mundo real, eu já tenho tudo isso planejado. Não vou errar com layout de fábrica que não funciona. Não vou errar com equipamento que comprei, mas não era aquilo. Não vou errar com processos que não funcionaram porque eu não testei que aquilo ia conflitar com outro processo.
Isso já é uma realidade?
Sim, as empresas automotivas já trabalham com isso. Você vai fazer uma linha para soldar carroceria só com robôs. Uma linha em que o carro vai passando e recebendo soldas nos lugares específicos pelos robôs. Como você faz isso? Você não faz isso com tentativa e erro na fábrica. Você faz isso num ambiente virtual. Você testa, simula, corrige, gera toda a programação dos robôs, valida. Quando monta já está tudo certo. Os nossos produtos permitem isso.
Nelson Bortolin
Reportagem Local
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